Parto

a queda

Existe algo que eu deixei no hospital.

No parto que eu não vi. Na passagem pela UTI.

Eu cheguei no hospital com uma diarreia e sai cinco dias depois com um filho.

O Vicente é tão filho das minhas entranhas que o estourar da bolsa foi aquela diarreia.

Eu tive uma complicação da gravidez. Induziram meu parto. Aconteceu a cesária. Anestesia geral.

Eu não vi o Vi nascer. Eu o conheci no dia seguinte. Eu o reconheci dois meses depois.

Ali nasceu meu bebê, o filho da barriga. A barriga explorada, exposta, transformada.

Ali eu morri. Centenas de vezes.

Ainda dói a experiência.

Foi confusa, traumática.

Abriram um buraco em mim. Dele tiraram meu filho. Por ele sangrei. Vazei. Pelo buraco que abriram em mim escaparam meus pesadelos presos. Meus pesadelos estão a solta por aí. Te assombram. Me assombram. Mas morrem. Hora ou outra. Uma vez fora, tem dias contados. Os pesadelos que escapam morrem.

Foi confusa. Mas foi. Ainda não gosto de passar perto do hospital em que nascemos, eu e o Vi. Mas está passando.

Pela mãozinha, há de passar.

Aquela mãozinha que segurou meu dedo quando chegamos em casa.

A mãozinha, que me desaba pra então me fazer lutar.

 

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